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Do Ver-o-Peso para o mundo: mulheres impulsionam a gastronomia que colocou Belém entre as melhores cidades gastronômicas do planeta

Boieiras e empreendedoras preservam sabores tradicionais da Amazônia e transformam saberes em sustento, cultura e identidade


Por Juliane Castro, Gabrielle Borges, Gabrielle Cardoso e Maria Vitória Egues


Mercado Ver-o-Peso visto de cima - Foto: Marx Vasconcelos
Mercado Ver-o-Peso visto de cima - Foto: Marx Vasconcelos

No Mercado do Ver-o-Peso, um dos símbolos mais importantes de Belém, a gastronomia amazônica tem rosto e protagonismo feminino. Mais do que isso, história e identidade.


Entre o fluxo de inúmeras pessoas que passam diariamente na feira, há cozinheiras, feirantes e empreendedoras que transformam conhecimentos herdados de suas famílias em fonte de renda, ao mesmo tempo em que preservam sabores e tradições que fazem parte da identidade cultural nortista.


O protagonismo das mulheres, nesse contexto,  ganha ainda mais relevância em um momento de reconhecimento internacional da culinária paraense. Em 2025, Belém foi eleita pela revista internacional Lonely Planet como uma das dez melhores cidades gastronômicas do mundo, ocupando a sétima posição do ranking e sendo a única representante brasileira na lista.


A publicação destacou, não somente, a riqueza da biodiversidade amazônica presente em ingredientes como tucupi, jambu, pirarucu, filhote, cupuaçu, castanha-do-pará e o tradicional açaí com peixe ou camarão. Como também, o Ver-o-Peso citado como um dos principais símbolos dessa identidade gastronômica, reunindo saberes, sabores e práticas transmitidas ao longo de várias gerações.


Muito além do reconhecimento internacional, a gastronomia também movimenta a economia local. Segundo dados da Agência Pará, em 2025, o estado possuía mais de 100 mil mulheres empreendedoras. Muitas delas atuam justamente nos setores ligados à alimentação, ao turismo e ao comércio popular.


De acordo com Renata Batista, gerente da Unidade de Sustentabilidade e Inovação do Sebrae Pará, essas mulheres exercem um papel fundamental não apenas na economia, mas também na manutenção da identidade cultural da cidade.


“As mulheres que atuam no Ver-o-Peso têm um papel fundamental na preservação da cultura, da tradição e no fortalecimento da economia de Belém. São empreendedoras que movimentam diariamente a cadeia produtiva do turismo, da gastronomia, do artesanato e do comércio popular”, afirma.

Para fortalecer esses pequenos negócios, o Sebrae oferece acompanhamento desde a formalização até estratégias de crescimento empresarial. Alguns dos serviços disponíveis são orientações sobre gestão financeira, atendimento ao cliente, marketing digital, vendas, precificação, inovação e acesso a mercados.


Tais capacitações podem ser feitas presencialmente na sede da instituição, em Belém, ou por meio da plataforma digital do Sebrae. Segundo Renata, a formalização tem sido um passo importante para ampliar oportunidades para as empreendedoras.


“Ao se tornar MEI, essa mulher passa a ter CNPJ, pode emitir nota fiscal, acessar crédito, participar de feiras, vender para outras empresas e ampliar seus canais de comercialização. Além disso, a formalização garante acesso a benefícios previdenciários, trazendo mais proteção para a empreendedora e sua família”, explica a gerente.


Os resultados desse trabalho já são percebidos no dia a dia dos pequenos negócios.


“Temos observado mudanças importantes principalmente na organização da gestão, no atendimento ao cliente e na divulgação dos produtos. Muitas passam a ter mais controle financeiro, utilizam melhor as redes sociais para vender, conseguem precificar corretamente seus produtos e ampliam suas oportunidades de mercado”, destaca.


O crescimento do empreendedorismo feminino também aparece nos números. Apenas em 2024, mais de 28 mil mulheres foram capacitadas pelo Sebrae Pará. Outro dado expressivo mostra que 57% de todos os atendimentos realizados pela instituição em 2025 foram destinados ao público feminino.


Além dos grandes centros urbanos, o avanço do empreendedorismo feminino também alcança comunidades tradicionais, territórios ribeirinhos e municípios do interior paraense. “Percebemos um movimento muito forte de mulheres empreendendo em comunidades tradicionais e utilizando os ativos da floresta de forma sustentável, agregando valor aos produtos amazônicos”, ressalta Renata.


Esse protagonismo destacado por Renata dialoga diretamente com o reconhecimento internacional da culinária paraense. A reportagem da Lonely Planet afirma que “comer em Belém é um ato político e cultural”, associando a gastronomia local à valorização dos povos amazônicos, dos saberes tradicionais e da biodiversidade da região.


Pratos típicos paraenses foram destacados pela publicação como patrimônios culturais que representam a identidade amazônica. No Ver-o-Peso, são justamente as mulheres que mantêm vivas essas tradições por meio do trabalho diário. 


Para isso, duas boieiras compartilham como é empreender no ramo da alimentação no Ver- O- Peso. Entre elas está Eliana Maria da Silva Ferreira, de 58 anos, cozinheira e boieira do Ver-o-Peso há 40 anos. Herdeira de conhecimentos culinários transmitidos por sua mãe, ela vê na cozinha muito mais do que uma profissão: um elo entre gerações.


“Cada prato que eu sirvo hoje carrega o tempero, o segredo e, acima de tudo, o amor da minha mãe. Ela me ensinou que cozinhar não é só misturar ingredientes, é passar adiante a nossa história. Hoje, trabalhar aqui com as minhas filhas é a prova de que esse saber continua vivo. A gente não vende só comida; a gente vende a nossa raiz”, afirma.

Boieira Eliana no Mercado Ver-o-Peso - Foto: Arquivo pessoal
Boieira Eliana no Mercado Ver-o-Peso - Foto: Arquivo pessoal

Para Eliana, a culinária tradicional amazônica foi o caminho para transformar sua realidade. “Eu vim de origem muito pobre e tudo o que conquistei foi com muita luta. Foi com o nosso peixe frito, o tacacá e a comida que eu consegui criar minhas filhas. Hoje, ter três unidades em Belém, conquistadas com tanto sacrifício, me dá um orgulho enorme. Essa comida não só alimentou os clientes, como também o futuro da minha família”, relata.


O reconhecimento internacional da gastronomia paraense também emociona a empreendedora. “É saber que a nossa comida simples, feita com tanta dedicação, venceu as fronteiras e hoje é reverenciada no mundo todo”, destaca.


A cozinheira também ressalta o papel das boieiras na preservação dos sabores amazônicos. “Nós somos as guardiãs dessa cultura. O tucupi, o jambu e a maniçoba fazem parte da nossa alma. Se o Ver-o-Peso é esse caldeirão de cultura viva, é porque cada boieira acorda de madrugada com o compromisso de manter a nossa identidade viva”, afirma.


Ao olhar para sua trajetória, ela resume o sentimento que carrega após quatro décadas de trabalho no mercado. “Tenho orgulho de ser mulher, de ser boieira do Ver-o-Peso e de ver que a nossa história foi escrita com suor, mas também com muita vitória”, finaliza Eliana.


Prato produzido pela boieira Eliana no Ver-o-Peso - Foto: Arquivo Pessoal
Prato produzido pela boieira Eliana no Ver-o-Peso - Foto: Arquivo Pessoal

Outra personagem que representa a força feminina presente no Ver-o-Peso é Fátima Ferreira, que encontrou na culinária tradicional paraense uma forma de garantir renda, sustentar a família e manter viva uma herança transmitida entre gerações. Segundo ela, os conhecimentos culinários aprendidos com a mãe continuam guiando seu trabalho diário “O trabalho influencia porque é uma coisa que a gente herdou da nossa mãe. Vai passando de mãe para filho e assim a gente segue fazendo. Graças a Deus dá tudo certo e as vendas são boas. É uma maneira da gente ganhar o nosso dinheiro, o nosso sustento ", conta. 


Para Fátima, o Ver-o-Peso representa muito mais do que um local de trabalho. “O Ver-o-Peso é como uma segunda casa para mim. Foi graças ao Ver-o-Peso que eu conquistei muita coisa na minha vida”, afirma.


O reconhecimento internacional da gastronomia paraense também é motivo de orgulho para a feirante.


“Para mim significa muito ver a nossa gastronomia sendo reconhecida mundialmente. Isso é bom para todos nós que trabalhamos com comida. Eu estou muito feliz porque consegui muita coisa com isso. É muito bom ver a nossa gastronomia sendo reconhecida. Lá no meu box chegam pessoas de muito longe, de vários estados e até de outros países para experimentar a nossa comida”, relata.

Prato típico produzido pelas Boieiras no Mercado - Foto: Arquivo Pessoal
Prato típico produzido pelas Boieiras no Mercado - Foto: Arquivo Pessoal

As trajetórias de Eliana e Fátima refletem uma realidade compartilhada por centenas de mulheres que atuam diariamente no maior mercado a céu aberto da América Latina. Entre panelas, receitas e saberes transmitidos por gerações, elas não apenas movimentam a economia local, mas também preservam a identidade cultural amazônica. Em um cenário de reconhecimento internacional da gastronomia paraense, o trabalho dessas mulheres reafirma que os sabores de Belém carregam histórias, memórias e resistência, tornando o Ver-o-Peso um dos maiores símbolos de cultura e tradição do Pará.


*Boieiras: são as tradicionais cozinheiras e vendedoras que preparam e servem refeições em mercados públicos. O termo vem da "bóia", que é a comida farta e diária servida aos trabalhadores.


Texto por: Juliane Castro, Gabrielle Borges, Gabrielle Cardoso e Maria Vitória Egues

Orientação: Professora Mestra Erika Siqueira

 
 
 

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